Viseu, um pouco de história
As origens de Viseu antiga e nobilíssima cidade, perdem-se nas brumas do tempo. Aqui estanciaram homens das Idades remotas da pré-história e conviveram Celtas e Lusitanos: aqui se fixaram os Romanos em séculos de prosperidade e paz e por aqui passaram com maior ou menor detença hordas dos povos invasores: Suevos, Godos e Muçulmanos…
As origens da cidade de Viseu remontam à época castreja “entre os anos 712 e 1057, Viseu era conhecida por Castro Vesense (Vesi significava visigodo), tem sido atualmente esta tese que tem sido defendida como a origem do nome de Viseu” e com a Romanização, ganhou grande importância, quiçá devido ao entroncamento de estradas romanas de cuja prova restam apenas os miliários. Estes miliários alinham-se num eixo que parece corresponder à estrada de Mérida (Espanha), que se intersetaria com a ligação Olissipo-Cale-Bracara, outros dois polos bastante influentes. Talvez por esse motivo se possa justificar a edificação da estrutura defensiva octogonal, de dois quilómetros de perímetro — a Cava de Viriato.
No tempo dos Suevos, em meados do século VI, já Viseu tinha os seus bispos, sufragâneos de Braga. Mais tarde, porém, com a chegada dos Muçulmanos e a derrocada do reino visigodo, o receio das violências dos infiéis obrigou-os a tomar o caminho do exílio e a refugiar-se nas longínquas montanhas das Astúrias. Seguiu-se um longo período nebuloso e trágico, raramente clareado por breves lampejos de paz.
Viseu está associada à figura de Viriato, já que se pensa que este herói lusitano tenha talvez nascido nesta região.
A célebre Cava de Viriato é um desmesurado polígono, constituído por uma alta trincheira de terra de forma octogonal, primitivamente cercada de um fosso ou valo de água de que existe ainda um pequeno troço num dos lados da sua parte norte.
Pretendem uns que esse monumental baluarte de terra haja sido uma fortificação, uma defesa militar romana ou mesmo pré-romana; outros supõem que mais não teria sido do que um abrigo dos rebanhos transumantes da Estrela, que em eras remotíssimas aqui estacionassem, caminho de Montemuro; ainda outros se inclinam a ver nela um sistema de defesa hidráulica como o da Cava de Ebro, tendente a drenar, irrigar, de qualquer modo regularizar as águas num certo trato de terreno, neste caso a parte interior da Cava.
A opinião mais aceite, porém, que perfilhou Virgílio Correia e teve igualmente o patrocínio do consagrado geógrafo Prof. Amorim Girão, da Universidade de Coimbra, é a de que a Cava deve ter sido um acampamento fortificado romano, talvez, segundo o Prof. Adolph Schulten, obra de Bruto Calaico por ocasião da campanha de 138 antes de Cristo.
Depois da ocupação romana na península, seguiu-se a elevação da cidade a sede de diocese, já em domínio visigótico, no século VI. No século VIII, foi ocupada pelos muçulmanos, como a maioria das povoações ibéricas e, durante a Reconquista da península, foi alvo de ataques e contra-ataques alternados entre cristãos e muçulmanos. De destacar a morte de D. Afonso V, Rei de Leão e Galiza no cerco a Viseu em 1027 morto por uma flecha oriunda da muralha árabe.
A reconquista definitiva caberia a Fernando Magno, Rei de Leão depois de assassinar em 1037 o legítimo Rei Bermudo III (filho de Afonso V) vencedor da batalha de Cesar em 1035 (segundo a crónica dos Godos).
Mesmo antes da formação do Condado Portucalense, Viseu foi várias vezes residência dos condes D. Teresa e D. Henrique que, em 1123 lhe concedem um foral. Seu filho D. Afonso Henriques terá nascido em Viseu a 5 de Agosto de 1109, segundo tese do historiador Almeida Fernandes. O segundo foral foi-lhe concedido pelo filho dos condes, D. Afonso Henriques, em 1187, e confirmado por D. Afonso II, em 1217.
É de referir, neste período, o nome de São Teotónio, padroeiro da cidade. Ele foi conselheiro de D. Afonso Henriques e pode-se encontrar uma das suas relíquias exposta na Sé de Viseu.
Foram tão fundas as feridas da rude ofensiva leonesa, que somente em 1147/1148 – cem anos após a reconquista... – estava a Diocese em condições de sustentar bispo próprio. Durante tão longo interregno pontifical, foi a Diocese governada pelos Bispos de Coimbra, por intermédio de Priores, o mais célebre dos quais, pelas suas virtudes foi S. Teotónio, patrono atual da Cidade.
Viseu foi constituído senhorio pela primeira vez a 7 de Julho de 1340, data em que D. Afonso IV o doou a sua nora D. Constança, quando do seu casamento com seu filho sucessor, o futuro D. Pedro I. Por morte desta Rainha, seu marido doou o senhorio, a 9 de Junho de 1357, a sua própria mãe, a Rainha Beatriz de Castela, viúva de D. Afonso IV. Quando D. Beatriz morreu, em 1359, o senhorio de Viseu voltou à coroa, até que a 2 de Outubro de 1377 o Rei D. Fernando I, filho da antedita Rainha D. Constança, o doou a sua filha natural a Condessa D. Isabel, que foi senhora de Viseu até 1383 e aí mandou construir uma torre, onde ficava quando estava na cidade. Com a crise dinástica, o senhorio voltou à coroa, até à criação do ducado de Viseu em 1415.
Já no século XIV, morto El-rei D. Fernando, o rei de Castela tentou fazer valer, pela força das armas, os seus direitos ao trono de Portugal. Então por ter seguido o partido do Mestre de Avis, passou Viseu a ser um dos alvos preferidos dos “corredores” castelhanos: mais de uma vez saqueada e queimada, a população escapou por milagre à chacina, barricando-se na Sé.
Cidade indefesa, à mercê da sanha de Castela, foi assim das terras portuguesas que mais sofreram, para que Portugal continuasse livre... Mas teimou em sobreviver: qual nova “fénix” ressurgiu das próprias cinzas, mal começava a despertar no horizonte a alvorada de concórdia entre as duas nações peninsulares. Depois, ao longo da gesta heroica de quinhentos e seiscentos jamais a sua gente deixa de estar presente nos momentos mais altos da vida da nação: foi a Ceuta e Tânger, ao Brasil e à Índia...foi aos confins do Globo, mercadejar, combater, missionar. Durante a crise de 1383-1385, Viseu foi atacada, saqueada, e incendiada pelas tropas de Castela e D. João I mandou erigir um cerco muralhado defensivo — do qual resta pouco mais que a Porta dos Cavaleiros e a Porta do Soar, para além de escassos troços de muralha — que seria concluído apenas no reinado de D. Afonso V — motivo pelo qual a estrutura é conhecida pelo nome de muralha Afonsina — já com a cidade a crescer para além do perímetro da estrutura defensiva.
Protegida por uma cinta de muralhas, servida por sete portas, a cidade desenvolveu-se como nunca, alindou-se. Levantou as abóbadas da Catedral, chamou Grão Vasco para seu vizinho e, orgulhosa de si, mandou esculpir nos portais, nas janelas e nas cornijas das suas casas em custosos e artísticos lavores, os sinais da sua prosperidade. É por isso que a cidade de Viseu pode justamente orgulhar-se de possuir, ainda hoje, um dos mais belos conjuntos do País, de casas, portais e janelas dos estilos gótico e manuelino, dispersos um pouco por todos os recantos, sobretudo nas típicas ruazinhas aconchegadas à Catedral.
No século XV, Viseu é doada ao Infante D. Henrique, na sequência da concessão do título de Duque de Viseu. Seu irmão D. Duarte (Rei) nasceu em Viseu, 31 de Outubro de 1391.
No século XVI, em 1513, D. Manuel I renova o foral de Viseu, e assiste-se a uma expansão para atual zona central, o Rossio que, em pouco tempo, se tornaria o ponto de encontro da sociedade, e cuja primeira referência data de 1534. É neste século que vive Vasco Fernandes, o Grão Vasco, um importante pintor português cuja obra se encontra espalhada por várias igrejas da região e no Museu Grão Vasco, perto da Sé. Também é nesta altura que vive em Viseu o bispo D. Miguel da Silva e a ele se deve a “Oficina de Viseu”.
O sol da glória, todavia, sumia-se rápido no ocaso, ao soar a hora fatal de Alcácer Quibir. A Nação decaída, prostrada, sem rei, sem honra, nem sombra seria daquilo que fora... Parecia morta, parecia perdida... eis porém, rapidamente se ergue, bem viva e desperta ao clangor das aleluias de 1 de dezembro de 1640. Luta e vence e de novo se levanta na aventura, agora nas florestas, nos sertões e montanhas dos confins do Brasil. Lá vêm outra vez as naus carregadas, não de especiarias da Índia, como outrora, mas de ouro e pedrarias raras das terras de Vera Cruz. Vêm a abarrotar de riquezas para El-rei D. João V.
Uma febre alta de renovação iria agora contagiar o País de lés-a-lés. Os artífices dos mais variados mesteres não terão mais os braços ociosos, insistentemente requeridos aqui e ali, presos aos seus compromissos. Capelas, igrejas, fontanários e velhos solares musguentos e bisonhos, alguns do tempo dos afonsinhos...tudo se refez ao impulso do novo estilo, com janelas de molduras e aventais lavrados, amplos salões luminosos, fortes cornijas onde antes, urnas e pináculos esquisitos implantados nos cunhais, gordas pedras de armas arrogantes, pesadamente coroadas... As irmandades e confrarias, à compita, erguem novos templos aos seus Santos patronos ou levantam-lhes retábulos de talha “à romana”, dourados de “ouro subido”. Pintam-se tetos à “bocarela”, em perspetivas audaciosas e enchem-se de lumes os altos tronos das igrejas onde se expõe o Santíssimo... Enfim, mais do que um estilo de arte religiosa ou profana, foi o Barroco um autêntico estilo de vida; estilo de vida que Viseu então adotou também, cuidadosamente, de tal modo que a cidade profundamente marcada pelo dinamismo setecentista, ainda hoje conserva um “ar” barroco.
No século XIX é construído o edifício da Câmara Municipal, no Rossio, transladando consigo o centro da cidade, anteriormente na parte alta. Daí ao cume da colina, segue a Rua Direita, onde se encontra uma grande parte de comércio e construções medievais.
Viseu está ainda ligada a grandes figuras da literatura nacional como são Tomaz Ribeiro e Aquilino Ribeiro, mas também ao desporto com Carlos Lopes, primeiro medalhado de ouro olímpico por Portugal e recordista Mundial da Maratona, à política com o Bispo D. António Alves Martins e Dr. António de Oliveira Salazar, presidente do Conselho de Ministros durante o Estado Novo, Capitão Almeida Moreira, primeiro Diretor do Museu Grão Vasco e que doou à cidade a sua casa e todo o seu espólio, atualmente a Casa-Museu Almeida Moreira. A Viseu também podemos associar um dos grandes nomes do fado de Coimbra com Augusto Hilário, o Rouxinol do Mondego.
Todavia, cidade de existência mais que milenária, não podia deixar de refletir no seu rosto vetusto o testemunho da passagem das sucessivas gerações. E eles aí estão, de facto, tais testemunhos: monumentos artísticos de todas as idades, felizmente poupados ao impiedoso desgaste dos séculos e à indiferença resultante dos Homens.
Diferentemente da maioria das cidades provincianas, que no geral se modernizam com uma avenida que se abre ou um novo bairro que se cria, Viseu vem progredindo de há anos por todos os lados, em todas as direções.
Pelas principais estradas que saem da cidade erguem-se por entre retalhos de paisagem admirável e inesquecível, as novas construções, prédios modernos, alguns à antiga portuguesa, com balcões convidativos, janelas de cachorros com vasos de sardinheiras, jardins de relvados e arbustos. Simultaneamente, novos bairros vão povoando a periferia da cidade velha. Esta mesma vem mudando em muitos dos seus aspetos: reedifica aqui, alarga além, ajardina acolá – compõe e moderniza.
Mas sendo assim não perde, fiel ao seu passado e ao seu meio, a sua feição ruralista de sempre, bem afirmada no mercado semanal das terças-feiras cuja tradição remonta muito além do século XVI. Nestes dias, Viseu regurgita de gente das aldeias, vinda à cidade fazer as suas mercas ou despachar sua vida pelas repartições, na Câmara, nas Finanças, nos Bancos, no Tribunal ou no Notário.
Atualmente Viseu já é, também, uma cidade reconhecida na área do ensino superior, com uma oferta variada e de qualidade.
Viseu é, segundo um estudo de opinião realizado pela Associação de Defesa do Consumidor (Deco), a melhor cidade do país para viver.
Já em 2007, a cidade de Viriato tinha ficado no topo da tabela das melhores cidades para viver num estudo semelhante da Deco. Agora, em 2014, a proeza repete-se.
Entre Setembro e Novembro de 2011, a associação inquiriu uma “amostra representativa” da população de cada capital de distrito do continente e das ilhas, e concluiu que Viseu é, com base na perceção dos inquiridos, a que tem melhor qualidade de vida. Viseu está ainda em décimo lugar na tabela internacional.
Viseu, uma cidade histórica, sentida e vivida a olhar para o futuro.
Por Heitor Castel’Branco (1.º Grão-Viriato). Adaptação de «Cidades e Vilas de Portugal: Viseu», de Alberto Correia; «História», Câmara Municipal de Viseu (2014); e «Viseu monumental e artístico», de Alexandre Lucena e Vale (1969).